O sol e a lua - Sérgio Carvalho

sábado, 17 de agosto de 2013



 ALMA PERDIDA


Meu canto é uma ilusão triste morrida
Na noite escura grita pelos vales
Feito bramido desta dor trazida
No desvario vai cobrir meus males

Qual bufo negro que a conduz perdida
Vozes do além que cruzam pelos ares
Na noite busca uma ilusão fluída
Adormecendo, enfim, nos negros vales

No plácido rancor por mim descrito
Plangente me ecoou p’la alma aflita
E a solidão contida neste grito 

Foi Betesga que vi vagando ao léu
Como fantasma, á noite, chora e grita
Tentando s’encontrar na luz do céu.





NOITES DE CHUVA

Não gosto, quando à noite, a chuva forte
Desmancha-se em airosa ventania
Uivando pelas frestas feito morte
Varando a madrugada em agonia

No teu murmúrio infindo, Vai meu norte
Numa canção de dor que principia,
Relâmpagos cortando a noite fria
Deixando meu destino à própria sorte

Treme-se a terra, em fortes trovoadas
No meu tormento, em tristes gargalhadas,
Que o belo, em mim, se veste em tais flagelos

Talvez, quando o meu corpo se fluir
Eu me alegre na chuva que cair
E os raios e trovões me sejam belos.























 JARDINS SOMBRIOS

(Decassílabos, ritmo provençal/gaita galega.)

Quando no outono das brumas sombrias
Nas tardes mortas, nos gráceis jazigos
Eu recostado-me, aos lustros abrigos
Molhar teu leito de lágrimas frias

Pelas soturnas ruelas esguias
Na soledade dos negros testigos
Sobre os teus restos, relvedos pascigos,
Hei de buscar-te nas noites vazias

Neste semoto moimento das dores
Onde adormecem os nossos amores
Desta fulgente e flébil mocidade

Mas tudo passa se esvai na neblina
No desespero que a vida declina
Nestes soturnos jardins da saudade

sábado, 31 de dezembro de 2011





Eu vivo preso no meu sentimento
Num desvario que me leva ao nada
Dentro de mim, ouvindo o meu lamento
Nas lentas noites pela madrugada


Sou a prisão que cerca o mar medonho
Que brilha o sol, entre as sendas esguias
Quando desperto no arrebol tristonho
Badala os sinos no final dos dias


AI! Se o meu verso fosse o meu alento
Desse-me a paz, que a brisa trás do vento
Me transportasse para um sonho infindo


Eu deixaria de gritar ao léu
Minh'alma iria flutuar no céu
E a morte iria me levar sorrindo








Saudade não se explica apenas sente
E o coração navega enclausurado
Na lágrima que corre tão fluente
Voraz, nos remetendo ao passado

Nos cântaros de luz vagava errante
Saudando os arrebóis no alvorecer
E hoje tão sozinho e tão distante
Sucumbe quando chega o entardecer

Saudade do cantar da passarada
Das noites de luar, na madrugada
Dum tempo de blandícia que eu passei

Fulgindo a vida passa e vem o fim
Nas plácidas manhãs eu sigo assim
Sabendo que na vida eu nada sei






Dedico este soneto a minha grande amiga e poetisa Reinadi Sampaio

sábado, 26 de novembro de 2011

OS DESÍGNIOS DE DEUS




                           
E quando vejo na tristura plena
Se debruçares no recosto eterno
No mausoléu trescala tão serena
A bruma triste para saudar o inverno

Plangente chora a inefável ida
Abraça-se à imagem em total candura
Jamais entende porque vai-se à vida
Ajoelhada sobre a sepultura

E frente ao rosto, do senhor, em pranto
Deitou-lhe salmos e teceu-lhe um canto
Pediu, quem sabe, uma ressurreição

Mas Deus te olhou igual um pai de LUZ
Por ti morreu pregado numa cruz
E balbucias tanta prece em vão....



     

UM GRANDE AMOR

                 





E quando nossos olhos se cruzaram
Foi como incendiar os nossos peitos
Os corpos de tão leves, flutuaram
E nunca mais se viram n’outros leitos

O amor é um sentimento indescrito
Sem pegos, sem amarras, sem destino
O calmo coração se torna aflito
Que n’alma se reveste em desatino

Amar é o corpo inteiro em descompasso
Tremer, em ânsia, só no teu abraço
Cobrir de beijos, quem nos causa dor

Dois corpos, juntos, vão ao paraíso
E morrem, neste amor, se for preciso
E dizem que o poeta é um fingidor!!!!!!